27 de ago de 2013

A Última Herdeira: II


   Manuela e Gabriel estavam indo para escola, ambos ainda pensando no fato ocorrido havia alguns minutos. Ela estava assustada, mas também estava encantada. Literalmente. Estava imaginando o que ela conseguia fazer, e tudo o que ela poderia obter com seus poderes. Poderes que ela não sabia se existiam, ou se o acontecimento anterior não passava de uma ilusão de sua cabeça.
   -Manu, acho que não devemos contar para ninguém o que aconteceu hoje.
   -Eu não sei... mas acho que posso contar para os meus amigos mais próximos!
   -Ficou maluca? Eles vão ficar com medo de você! Medo de você transformá-los em sapo ou coisa do tipo!
   -Você está com medo de mim? Tipo, me achando uma aberração?
   -Talvez... mas olha, sei que você não é maldosa, e sei que nunca ia me transformar em um bichinho. Ai! Acho que me transformaria em uma tartaruga. Você lembra que eu passei com o pneu de bicicleta por cima da Dori?
   -Lembro sim. Tenho saudades da minha tartaruguinha linda. Vou te transformar em uma tartaruga! Brincadeira.
   -Mas o que é que vocês estão fazendo parados aí na porta? Vamos logo!
   Os dois entraram no carro, e o assunto se encerrou naquela hora. Durante a aula, Manuela não conseguiu pensar em nada além da camiseta de seu irmão, se secando, evaporando, ou qualquer coisa que tenha acontecido. Agora, estava também preocupada. Será que seus amigos teriam medo dela? Será que ela era uma aberração? Será que nunca ia poder contar esse segredo pra ninguém? As perguntas, ela sabia, seriam respondidas com o tempo.
   O sinal da última aula bateu, e para Manuela, aquele era o som mais bonito e mais esperado do dia. Ela não via a hora de poder ir pra casa e conversar com seu irmão, a única pessoa além dela que sabia de seu mais novo segredo. Ela queria discutir como treinar seus poderes, para que usá-los, já estava até se imaginando com uma roupa de super-heroína.
   Enquanto esperava sua mãe, junto de Gabriel, em frente ao colégio, ela percebeu que do outro lado da rua, havia um carro sedã preto. Dentro dele, estavam sentados um homem e uma mulher. Ambos usando óculos de Sol, e com a cabeça virada em sua direção. Ela encarou os dois por alguns minutos, e eles não mudavam a posição da cabeça.
   -Biel, olha para aquele carro preto estacionado do outro lado da rua, disfarçadamente, por favor.
   -O que tem de mais? Vai ver são os pais de algum aluno. Sabe, não é porque fez aquela coisa estranha de manhã, que o mundo todo está girando em torno de você!
   -Eu sei disso tudo, mas é estranho, eles dois estão olhando pra mim!
   -Vai ver eles acharam você muito feia, com essa sua calça rasgada parecendo que caiu de bicicleta. E outra coisa, eles estão de óculos, vai ver nem perceberam sua extraordinária presença, estão olhando o portão, esperando alguém!
   -Tem razão, devo estar começando ficar paranoica.
   A menina, mesmo não falando mais nada, ainda estava intrigada com o carro estacionado. Poucos minutos depois, Silvia chegou, e finalmente Manuela se viu livre do carro misterioso. Eles chegaram em casa, almoçaram e fizeram suas tarefas de casa e de escola. As três horas da tarde, aproximadamente, a mãe das crianças voltou para o trabalho, e os irmão ficaram sozinhos na casa.
   Gabriel ficava quase o dia inteiro jogando no computador, enquanto Manuela lia, assistia à TV, ou fazia alguma outra coisa. Ela estava assistindo ao seu programa favorito, quando tocou a campainha. Pelo que sabia, não era esperado ninguém em sua casa naquela hora. Mas foi atender a campainha.Quando viu quem estava em frente à sua casa,  entrou em pânico. 
   Ela só podia estar louca, ou o homem e a mulher que estavam no carro, depois da aula, estava em sua casa. O homem era alto, forte e moreno, tinha alguns cabelos grisalhos, e vestia um terno preto e os óculos escuros de antes. A mulher era loira, e tinha seus cabelos dourados presos em um coque alto, e ela também estava de terno preto, e óculos escuros. Manuela falou pelo interfone:
   -Quem são vocês?
   -Boa tarde. Queremos conversar em particular com Manuela Menezes,ela está?- Disse a mulher com uma voz calma e rouca.
   -Não, não tem nenhuma pessoa com este nome nessa casa, devem estar enganados. Boa tarde.
   -Desculpe, mas não estamos enganados, nós a seguimos da escola que ela estuda, até aqui. Se ela não mora aí, ela está de visita. Tudo o que peço, Manuela, é que nos deixe entrar, precisamos conversar com você!
   -Eu não sou a Manuela, e não vou deixar ninguém entrar!
   -Ficaremos aqui em frente, caso tenha curiosidade em saber o porque da nossa visita, estaremos lhe esperando. Boa tarde.
   -Está bem. Entrem!- Ela estava insegura com relação à visita, mas a curiosidade era maior que tudo. Apertou o botão ao lado do interfone, e nesse momento, o portão se abriu. Após a entrada dos visitantes, apertou o botão novamente, e o portão se fechou.
   -Olá Manuela! Sei que está nervosa e com medo de nós dois, mas não vamos fazer nada de ruim para você, pelo contrário! Vamos responder todas as suas perguntas. E eu acho que, depois do que aconteceu de manhã, você deve ter muitas...
   -Como sabem o que aconteceu comigo hoje de manhã?
   -Nós trabalhamos em uma clínica que ajuda pessoas com dons especiais. Ela faz parte de um grupo de cientistas que estudam fatos como o que aconteceu à você hoje. O grupo tem uma clínica instalada em cada país, e a instalada no Brasil, fica em São Paulo. Quando acontece algo fora do normal, um alarme na sede principal, que fica em Berlim, é acionado, e uma mensagem é enviada para a clínica do país do fato.- Disse pela primeira vez o homem. Manuela achou a voz muito fina para o tamanho do dele.
   -Mas eu não sou um ser sobrenatural, né?!
   -É claro que não, muitas pessoas são como você. Mas como estava falando, assim que recebemos a mensagem, viemos de jatinho para Curitiba. Ah, já ia me esquecendo, meu nome é Thomas, e o nome de minha colega é Patrícia. Agora, já que você já sabe que estamos do seu lado, podemos nos sentar?
   A garota achou Patrícia um tanto antipática, e a cada minuto que passava perto dela, o cheiro de seu perfume a deixava mais irritada. Sobre Thomas, ela o achou um pouco folgado, mas parecia ser bem legal, e sua aparência primitiva escondia sua bondade.
   -Podem, claro. Mas eu não entendi direito, vocês vieram de São Paulo pra cá só porque eu sequei a camiseta do meu irmão? E como sabem que eu sou, hum... especial?
   -Você não só secou a camiseta do seu irmão. Você usou magia, bruxaria!
   -Mas Patrícia, eu não sou uma bruxa! Não sei fazer bruxaria, eu só olhei para a camiseta e ela secou!
   -Exatamente, e o alarme não tocaria se não fosse algo bizarro! E olha esse seu colar,você é uma bruxa, sim!
   -Patrícia, por favor, a menina está confusa, e você fala desse jeito com ela?
   -Mas o que tem meu colar? Eu o uso desde sempre!
   -Exatamente, fofa. Esse seu colarzinho, aí, é muito antigo. Mais antigo do que pode imaginar! haha.
   -Manu, eu posso te chamar de Manu? Bom, o seu colar, como pode ver, tem a letra "H" como pingente. Nunca se perguntou porque usava um pingente com a letra "H", sendo que seu nome começa com a letra "M"?
   -Bom, na verdade, sim. Mas minha mãe disse que tinha um significado, e que eu devia usá-lo sempre.
   -E ela estava certa. A letra "H", é a letra inicial da palavra "hexe", bruxa em alemão. Ele pertenceu à primeira bruxa que nasceu. Ela morava na Alemanha, no século XV. Naquela época, as bruxas eram perseguidas pela Igreja. E todas as descendentes mulheres de Hexe, a tal bruxa, foram mortas. Mas eles se esqueceram de que os descendentes homens dela, se tivessem uma filha mulher, ela também seria uma bruxa. Com o tempo os descendentes foram saindo da Europa, e a sua mãe legítima, uma bruxa, nasceu aqui no Brasil. Antes dela morrer, conseguiu salvar você, e lhe entregou o colar. De acordo com estudos, esse colar garante a imortalidade de quem o usa. Ele foi passado de geração em geração, e aqui está com você. A última herdeira dele.
   -Não pode ser, eu não sou adotada! Minha mãe engravidou de mim, ela tem fotos!
   -Sei que é difícil acreditar nisso, até hoje de manhã você era uma garota normal, mas você precisa aceitar. Todas as mulheres descendentes de Hexe, foram mortas, e os descendentes, ou não sabem dessa história, ou também foram mortos. Eu e Patrícia vamos embora. Você precisa pensar em tudo isso e descansar. Amanhã voltaremos, vamos falar com seus pais, e se eles concordarem, você irá para São Paulo conosco.
   -Não vou a lugar nenhum! Eu não sou uma bruxa, e não sou adotada! E quero que vão embora da minha casa, agora! Vão logo, eu vou abrir o portão e não quero vê-los nunca mais na minha vida! Quando vi vocês na escola, eu sabia que significava alguma coisa ruim!
   -Não queremos o seu mal, só queremos ajudar você!
   -Eu não preciso da ajuda de vocês! Vão caçar algum vampiro por aí e me esqueçam! Até nunca mais!
   -Bem, se essa é a sua vontade, respeitaremos, mas lembre-se, você não pode fugir do seu destino. Se um dia quiser ajuda, descobrir mais sobre você, esse é o meu celular, ligue para mim!- Thomas deixou um papel com o seu número anotado, em cima da mesa de centro. E os dois saíram da casa.

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